Ibovespa cai 2,69% e atinge menor pontuação em 4 meses; dólar sobe

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Uma nova onda de aversão ao risco varreu os mercados de ações pelo mundo nesta segunda-feira e a bolsa brasileira não ficou imune às ordens de venda, exercidas sobretudo por investidores estrangeiros. Os sinais de agravamento da guerra comercial entre Estados Unidos e China foram determinantes para a queda de 2,69% do Ibovespa, que fechou aos 91.726,54 pontos. Esta é a menor pontuação do índice desde 7 de janeiro (91.699 pontos).

Desde segunda-feira, quando o presidente Donald Trump anunciou que elevaria de 10% para 25% a tarifa de importação sobre US$ 200 bilhões em produtos chineses, o Ibovespa já perdeu 4,46% do seu valor nominal e 5,43% em moeda estrangeira. O agravante nesta segunda foi a retaliação anunciada pela China, de que vai impor novas tarifas sobre US$ 60 bilhões em produtos americanos a partir de 1º de junho.

“O recrudescimento da retórica míngua a esperança de um acordo no curto prazo e reacende os temores quanto a uma desaceleração acentuada da economia global”, disse Sandra Peres, analista-chefe da Coinvalores em relatório a clientes.

Segundo Alvaro Bandeira, economista-chefe da Modal Mais, a dúvida entre os investidores é se Trump está apenas sendo o “fanfarrão” de sempre – utilizando as sobretaxações como forma de pressionar a China -, ou se ele levará a guerra comercial à frente. “Se ele voltar atrás, os mercados se recuperam. Mas se levar à frente, boa parte do estrago já terá sido antecipado”, afirma.

Embora o ambiente doméstico não tenha trazido novidades significativas, o economista afirma que as preocupações com a reforma da Previdêncianão saíram do radar. “Com a reforma da Previdência no centro das atenções, estão também no radar as relações entre Jair Bolsonaro e Rodrigo Maia e também das diferentes alas do governo, principalmente entre militares e os filhos do presidente”, afirma Bandeira.

Das 66 ações que compõem a carteira teórica do Ibovespa, somente 2 fecharam em alta. Foram elas: Via Varejo ON (+2,60%) e BRF ON (+0,33%). Entre as quedas mais expressivas estiveram CVC ON (-7,68%) e Gol PN (-7,02%), por conta de incertezas com o futuro da Avianca. As ações da Petrobras caíram 2,86% (ON) e 2,92% (PN), alinhadas à queda do petróleo no mercado externo. Vale ON perdeu 4,10%, refletindo os temores da guerra comercial. Entre os bancos, destaque para Banco do Brasil ON (-3,63%) e Bradesco PN (-2,43%).

Dólar

O real foi engolfado na sessão desta segunda-feira pela onda de aversão ao risco que tomou conta dos mercados internacionais em meio agravamento das tensões comerciais sino-americanas. Na esteira do anúncio de que a China vai elevar tarifas de produtos americanos a partir de 1º de junho, em retaliação ao aumento anunciado pelos EUA na sexta-feira, investidores correram para a moeda americana.

Acompanhando o movimento global de moedas, o dólar à vista já abriu em alta por aqui, furando o teto de R$ 3,98, e rompeu a barreira dos R$ 4 ainda pela manhã, ao atingir máxima de R$ 4,0052. Foi o que bastou para que investidores comprados em dólar realizassem lucros e exportadores viessem ao mercado, amenizando a pressão de alta vinda do exterior.

Com os agentes já reposicionados ao ambiente global, o dólar passou a trabalhar com alta ao redor de 1% durante a tarde e, com uma leve perda de fôlego no fim da sessão, fechou a R$ 3,9795, em alta de 0,87%. Em maio, a moeda americana já acumula valorização de 1,49%. O giro no mercado à vista foi reduzido. Houve um volume levemente superior à média no mercado futuro, que, às 17h28, girava US$ 21 bilhões. Já o dólar para junho era negociado a R$ 3,9890, em alta de 0,78%.

Operadores notam que o mercado opera basicamente entre um piso de R$ 3,90 e um teto de R$ 4,00. As dúvida sobre a tramitação da reforma da Previdência no Congresso Nacional e as tensões externas impõem um viés “comprado” aos agentes. “Não há motivo para apostar no real no curto prazo. Mas também ninguém sustenta um dólar acima de R$ 4. Quando bate em R$ 4, as tesourarias correm para vender, é automático”, afirma Marcos Trabbold, diretor da B&T Corretora, ressaltando que, apesar de todo o ruído no curto prazo, a mediana da previsão do mercado para o dólar no fim do ano, segundo o boletim Focus, ainda é de R$ 3,75.

Para o economista João Fernandes, da gestora de recursos Quantitas, o rebaixamento de previsões para o crescimento do PIB neste ano, em meio às dificuldades políticas do governo, tira fôlego do real ao afugentar investidores estrangeiros. Enquanto não houver um sinal mais claro de que uma reforma da Previdência com economia fiscal razoável será aprovada, a moeda brasileira não tem como se descolar do comportamento de outras divisas emergentes. Lá fora, o real não foi das moedas que mais perderam em relação ao dólar nesta segunda-feira. A lira turca, o peso colombiano e o rand sul-africano recuaram mais de 1% na comparação com a divisa americana.

“Vimos um movimento de risk-off que afetou todos os emergentes. A disputa entre China e Estados Unidos pode arrefecer no médio prazo, e o real melhorar junto com outros emergentes. Mas não vai ter uma performance melhor que outras divisas enquanto não houver um evento que afaste essa incerteza interna e melhore a perspectiva de crescimento da economia”, diz Fernandes, ressaltando que, caso a reforma seja aprovada, é possível pensar em um dólar entre R$ 3,70 e R$ 3,80.

Taxas de juros

O temor de uma escalada protecionista na guerra comercial entre Estados Unidos e China manteve a ponta longa da curva de juros mais inclinada à tarde, nesta segunda-feira, embora com alta limitada pelo pessimismo sobre a atividade no Brasil. As taxas curtas fecharam de lado, diante da agenda fraca do dia e na espera pela ata do Copom nesta terça-feira.

A taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2021 fechou a sessão regular em 6,92%, de 6,881% no ajuste de sexta-feira, e a do DI para janeiro de 2023 subiu de 7,992% para 8,05%. A taxa do DI para janeiro de 2025 encerrou em 8,60%, de 8,532%.

O período da tarde foi de manutenção das taxas futuras nos patamares em que haviam encerrado a manhã, ou seja, entre 5 e 6 pontos-base acima dos ajustes anteriores no caso das longas, sustentadas pelo mau humor externo. Luciano Rostagno, estrategista-chefe do Banco Mizuho, afirma que na sexta-feira havia esperança de um fechamento de acordo sino-americano, mas após a entrada em vigor das novas tarifas impostas pelos EUA com consequente retaliação da China, “fica a expectativa de EUA voltarem a aumentar a pressão”. “A percepção é que as negociações emperraram”, disse. “Temos a curva empinando na parte longa, mas a curta não mexe muito com economia fraca. O câmbio testou R$ 4 mas já voltou e temos as bolsas sofrendo impacto maior”, avaliou.

Para o economista-chefe da Necton Investimentos, André Perfeito, a recomendação para a semana é “cautela”. “Temos uma situação onde devemos ver Trump na ofensiva mais uma vez e isto significa juros mais altos, dólar mais forte e queda nas bolsas. O limite deste processo obviamente é incerto”, disse.

Um aumento do protecionismo nas duas superpotências pode ampliar uma desaceleração da economia global e afetar os fluxos de capital para emergentes, pressionando o câmbio doméstico. No entanto, o contágio para a curva é filtrado pelo pouco espaço para repasse da alta do dólar aos preços. “Estamos numa situação mais favorável para absorver choques externos comparada a anos atrás, hoje com moderado déficit em conta corrente, reservas cambiais elevadas e baixa exposição da dívida em dólar”, disse Rostagno.

Nesta terça, será divulgada a ata do Copom, com detalhes do que foi pincelado pelo comunicado, considerado marginalmente “dovish” pelo mercado, com atenção especial sobre a avaliação do BC em relação à fraqueza da economia. Outro fator capaz de “fazer preço” é a Pesquisa Mensal de Serviços (PMS) do IBGE, referente ao primeiro trimestre. Segundo o Projeções Broadcast, as expectativas são todas de queda, de 1,3% a 0,1%, com mediana negativa de 0,30%.

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