Primeira vacina que for aprovada pode não ser a mais eficaz, alertam especialistas

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Mais de 160 vacinas estão sendo pesquisadas | Foto: Brian Ongoro / AFP / CP

Mais de 160 vacinas estão sendo pesquisadas como potenciais protetoras contra a Covid-19. Destas, 34 já estão sendo testadas em humanos de acordo com atualização feita pela OMS (Organização Mundial da Saúde) na quinta-feira. Isso significa que elas estão mais próximas de uma possível aprovação por órgãos reguladores para uma possível distribuição. Mas não garante que elas serão as mais eficazes para proteger contra a doença.

O fato de o mundo estar passando por uma pandemia acelera a corrida e, com isso, influencia na qualidade de um imunizante. “Quando você tem um problema muito grande as primeiras opções podem não ser as melhores. A OMS falou que uma vacina precisará ter eficiência de 50% [para ser recomendada]. Em condições normais você espera mais de 70%” afirma Luciana Cerqueira Leite, pesquisadora do Laboratório de Desenvolvimento de Vacinas do Instituto Butantan.

Gesmar Segundo, coordenador do Departamento Científico de Imunodeficiências da ASBAI (Associação Brasileira de Alergia e Imunologia) afirma que esse ofrouxamento de exigências e a ânsia por aprovar uma vacina em tempo recorde traz desvantagens.

“Pode ser que a gente gaste muito dinheiro para vacinar e daqui 6 meses tenha que fazer tudo de novo. Temos que abrir o leque [para diversas pesquisas] como estamos fazendo, mas precisa de tempo. A pressão das indústrias e dos governos só atrapalha o desenvolvimento de uma vacina adequada”, analisa.

Contudo, Luciana pondera que imunizantes com eficácia mínima de 50% já será um bom avanço. “Às vezes você pode ter uma vacina com 70% de eficácia, mas ela é muito cara. Então, com uma proteção de 50% a gente já ajuda bastante. Podemos aprimorar e ter a primeira, segunda e terceira geração dessas vacinas”.

Ela cita como exemplo as vacinas tríplices bacterianas (DTP) contra difteria, tétano e coqueluche. Foi desenvolvida uma vacina acelular (contém partes específicas da bactéria) com a expectativa de que ela tivesse a mesma eficácia e fosse mais segura que a vacina celular (feita com a bactéria inteira e morta). “A acelular só produz anticorpos e foi visto que ela protege, mas não tão bem como a celular e é mais cara. Por isso já se discute uma terceira geração que combine as duas coisas”, explica.

Anticorpos, células ou os dois juntos?
A cientista destaca que uma questão de grande influência na eficácia de uma vacina ainda está sem resposta no caso da Covid-19: qual tipo de resposta do sistema imunógico é a mais importante para garantir a proteção contra a doença.

Os anticorpos não são as únicas ferramentas de que o corpo dispõe para combater um agente invasor. Também existem células chamadas linfócitos T, que identificam e matam outras células que estejam infectadas. “Temos diferentes tipos de anticorpos e células [no sistema imune]. Dependendo da plataforma que você usa [para produzir a vacina], tem respostas muito variadas”, observa. “Às vezes, tem vacina que produz um monte de anticorpos ou células que não são suficientes para dar proteção”, completa.

Gesmar acrescenta que se o vírus inteiro é usado na composição de uma vacina – como é o caso da Coronavac, que usa o coronavírus morto – a estimulação do sistema imune será maior, mas isso não significa garantia de eficácia. “Eu vou ter anticorpos para diversas partes do vírus, mas eles podem não ser eficazes, porque podem se ligar a partes que não servem para nada”, descreve.

O Instituto Butantan, inclusive, trabalha na produção de uma vacina que, de acordo com os resultados dos testes laboratoriais, possibilita aumentar 100 vezes a produção de anticorpos e também é capaz de estimular a ação de células de defesa. As pesquisas com animais devem começar no início de 2021.

Gesmar afirma que esse tipo de imunizante, capaz de estimular anticorpos e células, seria o ideal para proteger contra a Covid-19. “Os anticorpos vão neutralizar o vírus e impedir que ele entre na célula. Mas, se por acaso o vírus já estiver dentro da célula, o anticorpo não consegue entrar”, explica.

Vacina por spray nasal
Outro aspecto que interfere na eficácia da vacina é o modo como ela é aplicada. Vacinas por spray nasal, por exemplo, percorrem o mesmo trajeto do coronavírus no organismo, já que ele entra pela via respiratória. Isso, na teoria, estimularia uma resposta imune “mais natural”, de acordo com Gesmar.

“Essa é uma área que ainda está em estudo. Mas em modelos animais temos resultados interessantes. Porque se você faz uma vacina que percorre o mesmo caminho do vírus, você induz a mesma resposta imune naqueles locais específicos. Em geral, são vacinas com vírus vivo atenuado, mas agora temos com nanoparticulas”, detalha Luciana.

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