Previsão de retorno dos cinemas gera dúvidas durante pandemia

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"Mulher Maravilha 1984" é um dos destaques das estreias este ano nos cinemas | Foto: Reprodução / CP Memória

Era uma daquelas programações para nenhum fã botar defeito. Intitulada “1980”, a mostra organizada pela Cinemateca Capitólio havia iniciado em 10 de março e trazia alguns dos melhores longas da década citada: “O Iluminado”, “O Império Contra-Ataca”, “Vestida para Matar”. Entre tantas atrações, uma em especial se destacava: “Touro Indomável”, o clássico dirigido por Martin Scorsese com uma atuação histórica de Robert De Niro.

Só que a Covid-19 obrigou os fãs a esperar, afetando diversos setores da cultura, como música, bares e baladas, cinema, teatros e outros espaços culturais. “Foi dia 14 de março, eu lembro porque foi justo nesse dia, quando a gente ia passar o filme, que fechou tudo”, lembra Leonardo Bomfim, programador da Cinemateca. Desde então, tanto o público como os responsáveis pelas salas da Capital dividem as mesmas inquietações: quando e como os cinemas voltarão?

Para a primeira pergunta, a resposta depende muito mais de fatores alheios à vontade dos programadores, que vão desde os decretos das autoridades até a evolução dos casos do novo coronavírus no país. No momento, a especulação mais forte sugere um retorno apenas no segundo semestre deste ano. Mas, aparentemente, a resposta para o segundo questionamento é tão mais importante, que a data exata de retorno não parece tirar o sono de quem trabalha no meio.

“A prioridade dos cinemas é a segurança para a saúde de todos quando pudermos retomar nossas operações. Como tivemos outros países que já se ‘adiantaram’ e reabriram suas portas, estamos podendo conhecer e aprender com essas experiências. Acreditamos que existe sim uma dificuldade em se achar o momento exato para essa reabertura. Porém, contamos com esse ‘aprendizado’ internacional para proporcionarmos ao nosso público uma situação que consideramos melhor e mais confiável”, assegura Hormar Castello Junior, diretor do GNC Cinemas e presidente do Sindicato das Empresas Exibidoras Cinematográficas do RS.

“Novo normal”
Algumas características deste “novo normal”, pelo menos enquanto não houver uma vacina, surgem como certas. A primeira é a redução pela metade da capacidade das salas, com a tendência de que sejam liberadas apenas fileiras alternadas. “Deverá ser assim. Essa é inclusive uma das premissas do ‘Protocolo de Procedimentos na Operação de Cinemas'”, revela Hormar, referindo-se ao documento com diretrizes estabelecidas pela Federação Nacional das Empresas Exibidoras Cinematográficas (FENEEC).

O plano prevê ainda cuidados higiênicos mais rigorosos não apenas nas salas em si, mas também nos demais ambientes como foyers, corredores, banheiros e bilheterias. A compra dos ingressos, diga-se de passagem, deverá ganhar campanhas sugerindo que os bilhetes sejam adquiridos pela internet, para evitar o manuseio das cédulas em papel. Fora tudo isso, a máscara será um item obrigatório para se entrar nos espaços.

Ao contrário de outras áreas como os eventos de música ou as festas, há uma confiança de que o público será retomado paulatinamente assim que a atividade for liberada, tanto nos espaços tidos como mais comerciais, como nos circuitos alternativos. “Com o perfil que temos da Cinemateca, essa retomada não deve ser problemática, porque é uma programacao específica, mais próxima do público. A gente sente pelos contatos com o pessoal que estão com saudade, mandando mensagens. Estamos recebendo muito carinho”, afirma Bomfim.

Neste processo de retomada, terá papel essencial o calendário de lançamentos no restante do ano. Produções como “Mulher Maravilha 1984”, “Viúva Negra”, “Top Gun Maverick” e “Mulan”, todas previstas até julho, devem ser lançadas ainda em 2020 e trazem nelas a esperança de amenizar o prejuízo visto até aqui.

“Teremos um primeiro momento mais lento em termos de retomada, que certamente irá servir para que todos possam readquirir a confiança necessária para frequentar os cinemas. Entretanto, já a partir do lançamento de produtos importantes, que se dará na sequência da reabertura das salas, temos uma perspectiva muito positiva”, prevê Hormar.

Higienização das salas e domìnio dos blockbusers
Com tantos filmes disputando espaço nos meses que restam de 2020, é preciso lembrar outras duas questões que estão interligadas: higienização das salas e domínio por parte dos blockbusters. Os cuidados com higiene serão redobrados daqui para frente, o que significa que a limpeza das salas após cada sessão deve ser mais demorada. “Haverá um check list mínimo a ser cumprido. Os intervalos entre as sessões poderão ser maiores e suficientes para que possamos atuar efetivamente neste sentido”, observa o diretor do GNC Cinemas.

Sendo assim, é natural que o número de sessões diárias também seja reduzido. O que nos leva ao segundo ponto, os blockbusters. Para aqueles filmes com orçamentos astronômicos, faturar menos que 500 milhões de dólares ao redor do mundo significa um fracasso retumbante. Com as salas com capacidade reduzida e menos sessões disponíveis, ficará cada vez mais difícil alcançar as bilheterias anteriores.

O que nos leva à pergunta: a indústria tenderá a apostar em filmes mais baratos, abrindo espaço para outros gêneros que não apenas os de ação e fantasia? Ou justamente o contrário, a necessidade de faturar mais vai fazer com que as distribuidoras monopolizem as salas de cinema, principalmente nos shopping centers, diminuindo ainda mais as opções do público?

“Não sou tão otimista de achar que as distribuidoras tenham que dimuinuir um pouco o patamar de lucro. Acho que o mais natural é que elas queiram todas as salas. Ao invés de três, vai ter um mesmo título em seis, tirando espaço de outros filmes”, acredita Bomfim.

O próprio programador da Cinemateca Capitólio, contudo, ressalta que em Porto Alegre esse problema não deve ser tão grande, uma vez que a Capital conta com várias alternativas. “Temos um circuito muito bom. Além da Cinemateca, temos o Guion, as salas da Casa de Cultura, o Cine Bancários. Em outras cidades é mais complicado. Espero que haja um pensamento um pouco mais coletivo. É ruim para todo mundo se só um sobreviver e outros não conseguirem espaço porque em algum momento isso vai chegar no grande”, pondera.

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