Caso Kiss: “Eu tenho que olhar na cara dos pais e dizer a minha verdade”, diz réu que será julgado em Santa Maria

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Foto: Renato Oliveira/Especial/CP

Em entrevista à Rádio Guaíba, Luciano Bonilha Leão, o único réu da tragédia da Boate Kiss a ser julgado em Santa Maria, no dia 16 de março, explicou os motivos que o levaram a não pedir o desaforamento e ser julgado em Porto Alegre e como foram os últimos sete anos desde o dia 27 de janeiro de 2013, quando 242 jovens morreram e outros 600 ficaram feridos.

Roadie (expressão utilizada para técnicos ou ajudantes de uma banda) da banda Gurizada Fandangueira, Bonilha iniciou a conversa relembrando as primeiras horas da noite da tragédia. Conforme ele, por volta da uma hora da madrugada, a banda começou a organização do show e, como ajudante, ele era responsável por carregar os instrumentos e alcançar água para os músicos. Luciano, durante a entrevista, tentou deixar claro a todo momento que o artefato pirotécnico usado durante o show e que desencadeou o incêndio, não foi entregue aceso por ele a Marcelo de Jesus dos Santos (vocalista). “Nunca foi acendido, quando se fala isso, tem que ter alguma ligação com a ação de queimar com um isqueiro ou algo assim, naquele caso não foi isso que aconteceu. Eu acionei o artefato, que já estava nas mãos do Marcelo, mas por meio de controle remoto”.

Bonilha explica que a organização dos shows da banda eram realizadas por Danilo Jacques, gaiteiro da Gurizada Fandangueira, que morreu na tragédia. Conforme Luciano, as decisões eram tomadas por Danilo e o dinheiro entregue ao roadie para que os artefatos que compunham o show fossem comprados. “Hoje eu nunca vou poder chamar o Danilo e dizer pra ele confirmar que ele tinha me pedido pra comprar o mais barato e as pessoas vão achar que eu estou querendo colocar a culpa em alguém que já morreu, mas ele nunca especificou pra mim e nem pra ninguém que foi comprar os artefatos se eram para área externa ou interna”.

Eram 2h15min quando os fogos usados pela Gurizada Fandangueira atingiram o teto que era feito com espuma altamente inflamável (que produz gás cianídrico quando entra em combustão). O ajudante da banda lembra do momento em que viu quando as chamas iniciaram e tentou com um extintor de incêndio combater o fogo, mas sem sucesso. O relato de que os equipamentos não funcionaram e estavam sem o lacre de segurança ocorreram durante esses sete anos por diversos envolvidos na tragédia, inclusive por Bonilha. “Se a casa estivesse com os extintores funcionando, ninguém estaria chorando hoje”.

Depois que as chamas se alastraram, o público entrou em pânico e correu para a única porta que havia na Boate Kiss, mas foi barrado pelos seguranças, que acreditavam se tratar de uma briga. Depois, esbarraram nas barras de ferro que organizavam as filas e que naquele momento atrapalharam a fuga. Os diversos obstáculos que existiam dentro da boate e a escuridão culminaram para que diversos corpos fossem encontrados dentro dos banheiros. Dois deles ficavam próximos do palco e o terceiro ao lado da saída. As luzes de emergência que acenderam durante o incêndio, porém, levavam até os sanitários que tinham janelas lacradas.

Julgamento
No dia 16 de março, Luciano Bonilha Leão será o único, dos quatro réus, a ser julgado no município da tragédia. A decisão de manter o julgamento em Santa Maria é do próprio acusado. “Eu acho que eu tenho que olhar na cara dos pais e dizer a minha verdade, quem tem que me julgar é a sociedade de Santa Maria”.

Bonilha não concorda com o desaforamento solicitado pelos outros três réus (Marcelo de Jesus dos Santos, Elisadro Spohr e Mauro Hoffmann) para serem julgados em Porto Alegre. Conforme ele, o pedido de perdão tem de ser feito perante os familiares, a comunidade e todos os santa-marienses envolvidos na tragédia. “Na hora de ganhar dinheiro foi fácil, tava tudo certo e daí simplesmente agora querer sair de Santa Maria, querer ser defendido fora de Santa Maria e pedir um perdão para jurados que não são da cidade? Isso não existe”.

“Faz sete anos que eu não saí de dentro da Boate Kiss. Há sete anos eu estou lá, vivendo e revivendo aquela noite”, essa foi a resposta de Bonilha quando questionado sobre lembranças, sonhos e pesadelos que remetessem àquela madrugada. “É um trauma que não tem como esquecer, faz dois dias que tenho pesadelo e ando escutando umas vozes no meu ouvido e vou ter que, inclusive, ir ao psiquiatra ver sobre isso”.

A dor de uma e várias mães
Durante a conversa, Bonilha lembrou de uma fala de sua mãe em conversa com um outro familiar. O desejo dela era que o filho pudesse nascer de novo para não ser acusado de assassinato. “Ela queria que eu encolhesse, nascesse de novo e que ela me criasse do zero. Imagina, uma mãe que criou um filho sem pai, em condições precárias, mas que se tornou trabalhador, ter que ouvir que ele é assassino. Ela me disse várias vezes que se pudesse, assumiria a minha dor”.

Para os pais e mães dos 242 mortos na tragédia, Bonilha resumiu em uma frase a mensagem que gostaria de deixar a eles: “que todos eles nunca deixem de lutar por justiça, pois ninguém põe um filho no mundo para ver dentro de um caixão”.

Quanto ao sentimento perante a tragédia, o ajudante da banda Gurizada Fandangueira se declara como vítima e diz que a forma de Santa Maria fazer justiça é o absolvendo. “Eu jamais iria matar alguém, eu jamais ia querer tirar o brilho de uma família que são seus filhos”.

Fonte: Rádio Gauiba

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