Indígena nascido em Tenente Portela conquista título de doutor na UFRGS

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Bruno Ferreira nasceu em Tenente Portela, mas atualmente mora em Iraí (Foto: Guilherme Santos/Sul21)

Atualmente morando em Iraí, na Região Norte do Estado, Bruno Ferreira foi criado na Terra Indígena do Guarita, em Tenente Portela. Na tese de doutorado, ele narra sua trajetória de vida desde suas origens na terra indígena, sua infância e adolescência, e as ‘maldades’ e castigos impostos pela escola por ser Kaingang e, na época, não falar português.

Eram os anos de 1970 e a escola municipal ficava dentro da Terra do Guarita em que ele nasceu, atendendo também alunos não indígenas, filhos de colonos arrendatários que viviam dentro da Terra do Guarita. A partir da 5ª série, Bruno Ferreira estudou em escolas de Tenente Portela e, aos 27 anos, entrou no curso de História na Unijuí.

Ao contrário do que normalmente ocorre com o estudante branco, em que a busca pelo ensino superior está relacionada à um projeto individual de carreira, emprego e renda, os objetivos de Bruno Ferreira em sua trajetória acadêmica sempre foram outros. Para ele, cada passo dado, desde a graduação até agora no doutorado, sempre esteve relacionado à obtenção de conhecimento em prol do desenvolvimento do seu povo.

— Vou para a universidade em busca de formação para um bem coletivo — explica o acadêmico, contrapondo aos anseios individuais que normalmente prevalecem na motivação dos estudantes brancos. — Em nenhum momento minha ida à universidade está condicionada somente a mim, enquanto indivíduo, o Bruno, ela é para o desenvolvimento do povo kaingang, em primeiro lugar, e dos povos indígenas. É a coletividade do meu povo que necessita de mim para fortalecer a nossa identidade, negada há 500 anos — acrescenta o índio nascido em Tenente Portela.

O primeiro doutor indígena da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) defende que seu povo precisa acessar o espaço de conhecimento do ensino superior, ambientes tradicionalmente ocupados pela elite branca brasileira, moldado a partir de uma vertente europeia, eurocêntrica, onde novos conhecimentos encontram resistências para serem aceitos.

Nas últimas décadas, os povos indígenas têm tido uma série de direitos reconhecidos, como o direito à língua e ao processo próprio de aprendizagem, o direito de manter valores e cultura própria, garantidos pela Constituição de 1988 e impulsionado pela Lei de Cotas, em 2012. — Até então, a universidade e a escola sempre negaram esses conhecimentos — afirma Bruno Ferreira.

O estudante explica que esse movimento de formação acadêmica está relacionado à construção de políticas públicas de interesse dos povos indígenas, de modo que sua voz seja ouvida em temas como saúde, educação e demarcação de terras, de acordo com a vontade das comunidades indígenas. — O indígena diz como quer a política pública, e não a política pública construída de cima para baixo. Então a ida à universidade tem essa intenção — emenda o Kaingang.

Bruno Ferreira destaca que as teses elaboradas por indígenas com títulos de doutor no Brasil afora vêm para fortalecer o argumento dos indígenas para realizar essas mudanças. — Essa é a importância de nós, indígenas, estarmos na universidade. Então vamos ter poder de dizer que nosso conhecimento também é reconhecido pela universidade. Nosso trabalho acadêmico fortalece nossa luta — complementa o portelense.

Além desse aspecto, o pesquisador Kaingang diz que, na pós-graduação, há também a ideia de compartilhar os conhecimentos indígenas oriundos da ancestralidade dos povos, saberes que precisam ser reconhecidos na universidade para, de alguma forma, promover a interculturalidade no ambiente acadêmico. — Ao trazer nosso conhecimento, práticas e visão de mundo à universidade, vamos fortalecer a identidade dos povos indígenas e apresentar conhecimentos que também podem servir à sociedade, um outro mundo que a sociedade não indígena não conhece — diz Bruno Ferreira.

Entre alguns aspectos desse outro mundo, ele destaca a relação do indígena com a natureza, e pondera ser um equívoco o conceito de que os povos indígenas a preservam. — Eles são a natureza, eles vivem ela, tem uma relação íntima com a natureza — finaliza o acadêmico.

Sul21

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